Era o cheiro do cadáver…

Não há como negar que há muito o que ser pesquisado no campo das ciências forenses. Aliás, sempre haverá, pois o capítulo da humanidade intitulado “ciência” não é convencional, pois possui começo, mas não meio e fim. Já os recursos financeiros para investimentos, em ciência esses sim possuem fim (repare na dualidade do termo “fim” que, nesta colocação, pode representar tanto finalidade quanto final – sim, foi intencional). Sabendo desta limitação, onde se deveria investir?

Essa é uma pergunta relativamente recorrente nos meios acadêmicos. Especialmente por parte das agências financiadoras que decidem quais projetos receberão os limitados recur$o$. Mas existem nações mais privilegiadas que nosso país tropical neste sentido. Nesses, os investimentos em ciência e tecnologia não passam por tantos crivos.

Um exemplo disso é a iniciativa de Dan Sykes, pesquisador da Pennsylvania State University. Ele se propôs a estudar compostos oriundos da decomposição cadavérica, visando mapear em que situações (inclusive ambientais) e em que ordem eles aparecem. A idéia do pesquisador é, no futuro, desenvolver um sensor eletrônico capaz de identificar tais compostos em pequenas concentrações. Segundo o pesquisador, o “focinho eletrônico” ajudaria equipes de busca a localizar corpos em áreas de desastre em massa ou de ocultação de cadáver.

Meu questionamento é simples: por que desenvolver uma máquina “farejadora” se um cão faz isso tão bem e de graça? A habilidade dos cães farejadores foi inicialmente utilizada nas caçadas, quando localizavam e perseguiam a presa. Desde o século passado esses cães têm sido treinados a localizar drogas, explosivos, resquícios de sangue, acelerantes e cadáveres. O faro de um cão é não somente mais apurado, como também mais versátil que o de uma máquina. Penso que vai demorar muito até que um focinho eletrônico possa substituir as atribuições de um cão farejador.

Terra Indígena Capoto Jarina (MT) – Equipe do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal com cães farejadores auxilia na busca das vítimas do acidente do Boeing 737-800 da Gol. Mais de 350 pessoas, entre militares da Força Aérea Brasileira (FAB), do Exército, bombeiros e peritos do Instituto Médico Legal (IML), participam das buscas. Foto: Divulgação/FAB

Há de ser dar mérito, entretanto, aos objetivos da pesquisa do Dr. Dan Sykes. Apesar de não ser um grande avanço na localização de um cadáver, talvez o seja na estimativa do tempo de decomposição. É sabido, a exemplo, que a decomposição de corpos humanos gera compostos como indole, cadaverina e putrescina. Mas em que ordem? Claro, os processos químicos que geram tais compostos são influenciados por fatores ambientais e micro-ambientais, como temperatura, umidade, fauna cadavérica associada, entre outros. Essa abordagem, no entanto, me pareceu interessante. Que seja esse o início da formação de uma biblioteca de compostos oriundos da decomposição e de sua ordem de aparecimento.