De perna para o ar

Quando um cadáver é encontrado, um dos questionamentos que se deve fazer é se aquele indivíduo morreu onde foi encontrado ou se ali foi colocado depois de morto. Apesar de obvia a importância dessa informação, nem sempre ela é prontamente respondida. E uma resposta precisa deve levar em conta conhecimentos pertinentes ao levantamento de local de crime e, por que não, de medicina legal.

Recentemente, durante um plantão, fui acionado à comparecer em um determinado endereço onde haviam encontrado um cadáver. Imediatamente, fui ao local acompanhado do fotógrafo técnico-pericial.

Era uma via pública de um bairro residencial. No pavimento asfáltico, havia um cadáver. Estava lá o corpo estendido no chão, em decúbito ventral, com a camisa ensangüentada e embolada dorsalmente a altura pouco abaixo dos ombros. As costas e o cabelo (porção posterior) apresentavam sujidades com areia. Quanto aos ferimentos, havia alguns pérfuro-incisos (um no dorso e outros no pescoço), além de escoriações nas costas (orientadas longitudinalmente ao corpo). Era um local pobre em vestígios. Uma única e pequena mancha de sangue e nada mais ao redor que fosse digno de nota.

Observando o corpo, algo me chamou a atenção: a perna direita tinha o joelho parcialmente flexionado e estava levantada no ar, sem qualquer apoio. Como o cadáver já estava em rigor mortis, a tal perna ali permanecia, parada, como se não houvesse gravidade. Veja a foto abaixo:

Repare na posição da perna direita. Ao fundo, há de se notar o quanto o ser humano é curioso quando o assunto é um cadáver, reparem quantos pés ali estão.

E então? Aquele indivíduo morrera naquele local? É provável que não. Vejo que o corpo foi transportado para aquele local e foi ali “desovado”. Mas como justificar essa afirmação?

Como já vimos em outro post, a rigidez cadavérica, ao se estabelecer, “congela” o corpo na posição em que ele estava. É provável que tal corpo estivesse em decúbito dorsal (ou seja, de barriga para cima) e com a perna direita flexionada em um plano pouco abaixo do corpo quando o rigor se estabeleceu. Ao ser colocado em outra posição, a perna manteve sua posição original. Outra hipótese, bem menos provável, seria “a revogação da lei da gravidade para pernas direitas de cadáveres”, como ouvi um colega ironicamente comentar.

Outras características que suportam a hipótese de transporte post mortem é o fato de não haver o sangramento vultoso no local. Ferimentos pérfuso-incisos tendem a ser altamente hemorrágicos. Logo, se estes tivessem sido produzidos no local de encontro do corpo, haveria grande quantidade de sangue pelo pavimento, o que não foi observado.

Mais uma: a areia encontrada nas costas e no cabelo (parte de trás da cabeça), associada a escoriação nas costas e a posição da camiseta (embolada na altura dos ombros), sugerem que alguém arrastou o corpo enquanto este estava em decúbito dorsal e num local cujo solo fosse arenoso. Nas redondezas em que foi encontrado o corpo, não foi encontrado nenhuma porção de solo exposto com característica arenosa.