Sangue menstrual ou periférico? Qual a diferença?

Novo método permite diferenciar amostra de sangue de origem menstrual ou periférica e tem repercussão nas investigações de crimes sexuais

Em uma investigação criminal, determinar a natureza e a fonte de um vestígio pode fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso. E como os filmes e seriados costumam mostrar, sangue é um dos vestígios mais comuns na análise pericial. Ok, mas por que diferenciar sangue menstrual de sangue periférico é relevante? Bem, é sempre importante saber se sangue relacionado a um crime veio de um sangramento natural (como aquela hemorragia mensal feminina) ou a partir de uma lesão. Neste segundo caso, o sangue é periférico e a lesão pode ter relevância para investigação.

Sexo, crime e perícia

Em casos envolvendo crimes sexo relacionados, diferenciar sangue periférico de sangue menstrual é especialmente relevante. Afinal, após uma agressão sexual em que o material coletado é, digamos, uma calcinha da vítima com uma mancha avermelhada, a primeira suspeita é que se trata de sangue oriundo de uma lesão resultante da agressão. Em termos periciais, se torna essencial não apenas a confirmação de que a mancha avermelhada é de sangue humano, como também a exclusão da hipótese de sangue menstrual. Isso por dois motivos principais: primeiro que não é raro um agressor alegar que o sangue em uma calcinha é menstrual; segundo que é necessário descartar a possibilidade da alegação da vítima ser falsa.

Mas como diferenciar?

No mundo forense, diferenciar duas amostras equivale a procurar por elementos que se espera encontrar em uma, mas não na outra. No caso da diferenciação de sangue periférico e menstrual, o objetivo é observar a amostra sanguínea sob a ótica analítica e verificar a presença ou ausência de algo que exista, por exemplo, no sangue menstrual e que não exista no periférico. Sabendo a diferença entre um e outro, é possível o desenvolvimento de anticorpos específicos que permitam a verificação. É um método corriqueiro e utilizado em testes rápidos de gravidez comumente vendido em farmácias. A diferença está no tipo de anticorpo: no caso da gravidez, o anticorpo é contra o hCG excretado na urina das gravidas; na abordagem em tela, os anticorpos são contra a hemoglobina humana e contra um dos subprodutos da fibrinólise menstrual.

Periférico? Menstrual? Qual a diferença?

Uma das substâncias mais características do sangue é a hemoglobina. Como qualquer proteína, ela é formada por sequências de aminoácidos que compõe suas subunidades. Entre espécies diferentes, essa sequência tende a ser levemente diferente, o que torna possível o desenvolvimento de anticorpos específicos para a hemoglobina humana. Ok, com isso sabemos que o sangue é de origem humana, mas como sabemos se é periférico ou menstrual?

A menstruação é um processo natural de degradação do endométrio (uma camada efêmera do útero feminino). Durante esse processo, ocorre um fenômeno chamado fibrinólise que nada mais é do que a degradação de coágulos de fibrina. Em outras palavras, a fibrinólise é um processo contrário ao da coagulação sanguínea: enquanto nesta ocorre a formação de coágulos de fibrina, naquela a fibrina é degradada. Um dos subprodutos da fibrinólise é dímero D e, portanto, estão presentes no sangue menstrual, mas não no periférico (exceto em determinadas condições clínicas).

O método recentemente desenvolvido e publicado permite não apenas verificar se há hemoglobina humana na amostra, mas também a apontar a presença de dímero D. Estando ambos presentes, trata-se de sangue menstrual. Sendo apenas a hemoglobina humana presente, então o vestígio é de sangue periférico humano.

Validação e uso forense

No artigo intitulado Forensic differentiation between peripheral and menstrual blood in cases of alleged sexual assault—validating
an immunochromatographic multiplex assay for simultaneous detection of human hemoglobin and D-dimer, foi demonstrada a potencialidade do método em casos reais envolvendo alegação de agressões sexuais e validado em meio forense.

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Essa imagem, extraída do artigo original, mostra o resultado de três testes. No primeiro (a) foi utilizado apenas sangue periférico; no sengundo (b), sangue menstrual de primeiro dia de mestruação; e no terceiro (c) apenas a solução tampão do teste.

A validação é importante não apenas para dar robustez aos resultados, mas também para dar segurança ao perito criminal em suas conclusões. Ficou demonstrado, por exemplo, que misturas com sêmen não afetam os resultados e que o material diluído em tampão permanece viável para exames de DNA posteriores.

Limites do teste e instrução do analista

Claro que há possíveis limitações ao método, como falsos positivos em casos de pacientes trombolíticos e amostras sanguíneas de cadáveres, ocasiões em que se espera o aumento da concentração circulatória da dímero D. No entanto, isso é apenas de relevância limitada, porque a maioria das amostras de sangue observadas em locais de crime são originadas de indivíduos vivos. Apesar dessas limitações, o teste é de simples implementação na rotina de trabalho forense, e ainda permite o uso da amostra residual na solução tampão para análise de DNA. O desempenho não parece depender do usuário, pois o procedimento é padronizado e nenhum treinamento especial por parte do analista é necessário.

Perspectivas futuras

Essa empreitada revelou o qual promissora pode ser a colaboração internacionais, inclusive com pesquisadores/peritos criminais brasileiros. O artigo expôs a possibilidade de analisar possíveis falsos positivos e verificar condições médicas que possam afetar as leituras. Bem, se os futuros trabalhos apresentarem a qualidade do artigo que deu origem a este post, estaremos ansiosos para conhecê-lo!

 


Saiba mais em:

Holtkötter, H., Dias Filho, C.R., Schwender, K. et al. Int J Legal Med (2017). https://doi.org/10.1007/s00414-017-1719-y
The Surge – Menstrual or peripheral blood? New method permits forensic investigators to identify blood source in sexual assault cases